A Dona Henriqueta

   A história desta portuguesa começa em Montes d'Alcobaça, na pequena aldeia na Estremadura, no Centro de Portugal, onde Henriqueta nasceu e viveu até a adolescência. A mãe, cozinheira de mão cheia, foi a grande professora de Henriqueta nas artes da mesa. Mas a primeira paixão de Henriqueta foi a costura e não a cozinha. Na adolescência, fez diversos cursos e passou a ensinar as meninas na aldeia. Tirou diplomas em escolas importantes e a Dior era uma das maisons preferidas. Em Lisboa, Henriqueta viveu dias muito felizes e foi onde descobriu seu primeiro amor... Antônio Gaio. Um namoro que não prosperou, pois a jovem Henriqueta descobriu que Gaio tinha outra namorada. A jovem modista não o perdoou e, do alto dos seus vinte e poucos anos, tomou a decisão de mudar para o Brasil.

  Já em terras brasileiras conheceu Agostinho, futuro marido e com quem viveu uma nova paixão. Foram oito anos de muito romantismo até a morte dele. Todas as sextas-feiras, Agostinho levava para ela um buquê de rosas amarelas. Do fruto deste amor, Agostinho e Henriqueta tiveram dois filhos, Alexandre e Marcelo.

  Com a perda do marido, Henriqueta herdou o restaurante aberto em 1977, a Gruta de Santo Antônio, onde eram servidas algumas receitas, de um modo simples, mas muito típico de Portugal. Foi quando a jovem, com dois filhos, teve que fazer a grande escolha de sua vida, prosseguir com o negócio do marido ou fazer o que amava, costurar.

  Como Santo Antônio é o santo de devoção de toda família portuguesa, a proteção veio e a decisão foi de levar adiante o restaurante, sem mudar em nada o que o marido construíra. Assim amenizava a saudade, mantinha a casa aberta e garantia o sustento dos filhos.

  Seus filhos, Alexandre e Marcelo, cresceram na Gruta, são parceiros e sócios da mãe no restaurante. Marcelo cuidando da administração e Alexandre Henriques, que se dedicou ao estudo da gastronomia e da enologia e percebeu que valia a pena investir no negócio da família. Com isso a qualidade da Gruta passou a ser reconhecida não só em Niterói, mas no Rio de Janeiro.

  Alexandre, filho mais velho de Henriqueta, tornou-se amigo de pessoas do ramo da alta gastronomia e percebeu que poderia transformar a Gruta de Santo Antônio em referência de gastronomia e qualidade. Foi quando decidiu mudar tudo no restaurante. Dos talheres aos copos especiais, começou a investir na compra de rótulos de vinhos – especialmente os portugueses – e na construção de uma adega climatizada. Acima de tudo, percebeu que não devia jamais deixar para trás as características básicas de um restaurante familiar. Era preciso manter a personalidade da Gruta de Santo Antônio, a história do lugar.

  Prosperar é pouco para a família da Dona Henriqueta Henriques. Eles tinham a faca e o queijo, ou o peixe na mão em Niterói. Com o mercado de peixe ao seu lado, clientela diversa, quantidade e a qualidade do bacalhau que era servido por um preço absolutamente acessível.

  Como uma química ou uma Magic e muitas idas e vindas a Portugal, a Gruta hoje conta com 26 funcionários, alguns há 15 anos na casa. Uma adega climatizada com 300 rótulos e mais de 3000 garrafas e principalmente clientes que percebem, admiram e são fiéis ao padrão Gruta.

  Assim segue Dona Henriqueta e a Gruta de Santo Antônio sob o comando da família Henriques. É comum esbarrar entre os salões com empresários, músicos, artistas famosos, gourmets, turistas brasileiros e estrangeiros. Basta ver o simpático painel de fotos na entrada do restaurante.

  Henriqueta, Alexandre e Marcelo recebem cada um de seus clientes com especial carinho e preocupação. Por isso a certeza de que ali residem o coração sentimental, a alma generosa, a poesia e o encanto do povo português.